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Neurocirurgia PUBLICADO EM 02/03/2017

Parece ficção, mas neurocirurgia já pode ser feita com o paciente acordado

Procedimento tem a finalidade de retirar o máximo de tumor possível e minimizar sequelas

Participação do médico, Igor Maldonado, especialista em neurocirurgia

Parece ficção, mas neurocirurgia já pode ser feita com o paciente acordado

Apesar de parecer cena de filme de ficção científica, a neurocirurgia com o paciente acordado é uma técnica moderna e capaz de reduzir o tempo de internação e de recuperação do paciente. Apesar de ainda ser pouco explorado no Brasil, o método permite ganhos tanto para o paciente quanto para a equipe médica, pois, regiões do cérebro muito delicadas podem ser afetadas quando a operação é realizada com a pessoa dormindo. Com o paciente acordado, é possível operá-lo sem prejudicar sua memória e funções motoras, minimizando sequelas.

Porém, não é qualquer paciente que pode realizar este tipo de cirurgia. Existem critérios para se indicar uma cirurgia de retirada de tumor cerebral com mapeamento em estado acordado. Um primeiro critério é em relação à necessidade. Usa-se o mapeamento cerebral com o paciente acordado para tumores localizados em áreas altamente funcionais, quando se quer retirar o máximo de tumor, preservando o máximo da função cerebral eloquente. Se o tumor é numa área cerebral que não é tão nobre assim, pode ser mais seguro operar a pessoa sob anestesia geral. Deve-se, também, levar em consideração a elegibilidade anestésica neste tipo de procedimento. É uma anestesia diferente, uma anestesia especial e não é qualquer tipo de paciente que pode ser submetido. Por exemplo, pacientes que são extremamente obesos não conseguem fazer esta cirurgia acordados para mapeamento cerebral.

“Contando, pode parecer angustiante, mas é tranquilo de verdade”. Essa foi a conclusão que a jornalista, Juliana Carvalho, 39 anos, teve do seu procedimento. Ela conta que, em setembro de 2015, descobriu um tumor de 3,7 cm na lateral frontal direita do cérebro e a neurocirurgia foi o procedimento escolhido pelo médico. “Nem questionei, até porque tinha e tenho 100% de confiança no médico escolhido”, revela.

Antigamente, para realizar a cirurgia com o paciente acordado, existia uma certa surpresa, um susto, e precisava de um treinamento um pouco mais longo para se vencer essa etapa de aceitação. “Hoje em dia, as coisas são muito mais fáceis porque, quando as pessoas se descobrem portadoras de um tumor cerebral em uma área eloquente, elas mesmas buscam a informação na internet, por exemplo. Então, é muito comum que cheguem a um consultório já tendo ouvido falar do mapeamento cerebral e da cirurgia acordada e isso torna as coisas muito fáceis”, explica o médico Igor Maldonado, especialista em neurocirurgia.

Também chamada pelos americanos de 3A (‘asleep-awake-asleep’, dormindo, acordado e dormindo novamente), a neurocirurgia acordada tem três fases. O paciente acorda durante a cirurgia apenas no momento em que ele é necessário, diminuindo o risco de sequela se ele for portador de um tumor intracerebral próximo de uma área funcional, por exemplo. “Não há desconforto algum, absolutamente. Lembro, perfeitamente, até o momento que o médico falou: pronto, Juliana, retirei o tumor todinho. E respondi que sabia que seria assim. Depois disso, não tenho mais recordações da cirurgia”, esclarece Juliana.

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A neurocirurgia começa com o indivíduo sob anestesia geral, uma anestesia um pouco diferente da habitual, pois o indivíduo não é entubado, é anestesiado através de um dispositivo chamado de máscara laríngea, ele respira com auxílio de aparelho, mas o tubo não vai dentro da garganta, não traumatiza as cordas vocais. Durante esta primeira etapa, é feita a craniotomia e um bloqueio de couro cabeludo. Após isso, o indivíduo é acordado. O paciente acorda e não sente dor, porque foi feito o bloqueio de couro cabeludo. “Durante o procedimento, o médico me pediu pra realizar alguns movimentos, como levantar os braços e as pernas. Quando pediu pra eu levantar a perna esquerda, não consegui. Ele insistiu e aí levantei a perna esquerda com a ajuda da direita. Demos risada por eu ter, segundo ele, trapaceado na mesa de cirurgia”, se diverte Juliana. “Também perguntei muito sobre como serraram o crânio, pois queria saber a quantidade de cabelo que haviam tirado”, completa. 

Manter o paciente acordado durante uma cirurgia no cérebro dá ao próprio paciente uma segurança maior. Porque, após o tumor ter sido retirado, o paciente se vê falando, mexendo dos dois lados do corpo, plenamente consciente. Ele tem a tranquilidade de que está bem, pois não sente nenhum desconforto ou dor durante o procedimento. “Pode acontecer, quando o procedimento é um pouco mais longo, dele se incomodar com a posição, mas nada que não se possa resolver no momento. Mas, não existe nenhum desconforto com relação ao corte ou a manipulação”, explica doutor Igor.

É importante ressaltar, que não existe procedimento cirúrgico sem complicação, em nenhum porte e em nenhuma especialidade. No mapeamento cerebral, o mais comum que se observa é uma deficiência neurológica transitória que se segue alguns dias após o procedimento. Isso é natural pela manipulação da área funcional cerebral. O médico Igor Maldonado ainda acrescenta que “esta pequena deficiência transitória geralmente se deve a um inchaço local, é um edema cerebral transitório devido ao fato de que aquela área cerebral funcional foi manipulada e isso é um sinal de que o cirurgião foi até a área altamente funcional, quer dizer, ele tirou o máximo de tumor possível”.

Após realizado o procedimento, é possível que esse paciente volte a realizar suas atividades em torno de um mês. “No dia da cirurgia, logo que acordei, senti muita dor de cabeça. Inclusive chorei e pedi pros médicos me darem remédios para passar aquela dor. Mas foi só aí. Depois não senti mais nada. Graças a Deus, não precisei ficar entubada. A biópsia para câncer deu negativa e, hoje, um ano e três meses depois, o médico já vai retirar, inclusive, o uso do anticonvulsivo”, finaliza Juliana, emocionada.

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